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Correio Do Autor

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terça-feira

[E O SEU OLHO IGNOROU O OURO NO MEIO DAS FRASES]

[leitor, sim, mas de punti luminosi.]

[ler é buscar pepitas ali onde barranco é só calhau na superfície.]

[ou é apanhar a fruta que, só, sozinha nas grimpas, reside na árvore torta.]

[ou o peixe que navega na zona de sombra entre a água turva e o barro cálido das funduras.]

[leitor, sim, mas de punti luminosi, a erupção de um fogo, a germinação de um raio, uma só palavra capaz de incendiar o livro.]

[ah, os apóstolos do milharal para bandos de corvos.]

[ah, os já atordoados pela proliferação do mesmo e da mesmice nessa camada cômoda e acomodada dos textos.]

[ah, os preguiçosos do garimpo, glutões da banha que o palavrário insosso dá ao texto obeso.]

[leitor, sim, mas de punti luminosi, ilhotas selvagens e à deriva: só para navegantes despatriados e expatriados nesse exílio perene da escritura.]

segunda-feira

[GEORGES PEREC, A JANELA E O GATO PRETO]

[nada tem a ver o que agora escrevo
com a foto de perec e seu gato preto, 
nem com a janela ao fundo, suas grades

em arabescos, a luz vazante, o almofadão
que de sofá se faz. nada tem a ver,
e tem, agora digo, pois há uma personagem

que não vejo, e é tal pessoa, pessoa novelesca,
que puxa palavra atrás de palavra, é a ponta
de um novelo que não vemos. pobre literatura,

quão pobre é a literatura nesse instante,
no êxtase de uma ausência, eu digo,
a pobre e miserável literatura em seu lugar

mendigo, ela poderia tratar de presenças, 
mas prefere as ausências, tão desmiolada
literatura, enquanto a corrente direcional

do senso comum vê o cenário, a réptil, 
a quelônia, a viscosa literatura vê
o que não aparece na foto, opta

pelo que está fora, pelo que fugiu 
pelas bordas-margens da foto, 
é batalha perdida, eu digo, desde

os antigos palimpsestos do mundo
é a mesma história, eu digo, trata
a literatura desse buraco, é esse buraco

que a redime, e é esse buraco
que a cada texto lhe dá o tiro de misericórdia.]

sábado

[A HABITABILIDADE DO POEMA]

E então nomeio a habitabilidade do poema, a habitabilidade móvel do poema, seu movimento peregrino pelo tempo, através do tempo. O poema, casa móvel, a morada que se desloca.

***

Lezama Lima disse certa vez, com imagens diamantadas, tão próprias do poeta cubano, ser ele um peregrino imóvel de si mesmo. Giro essa imagem de Lezama entre os dedos. Giro-a como quem gira uma esfera. Giro-a não para esgotá-la pelo faminto entendimento, mas para aceitá-la. E com ela ponho em circuito a habitabilidade do poema.

***

A casa móvel do poema. Em que lugar estejam os peregrinos, abre-se a porta da casa móvel. Entrar não significa ficar, não significar tornar imóvel o que é íntimo, mas ir, ir-se, dentro e fora, a habitabilidade navegante do poema.

***

Pois então a ideia de barco. Pois então a ideia de navegação. Chego assim ao destino argonauta dessa ideia que vem, e vem agora em comunhão com a habitabilidade do poema. Morar em viagem. A habitabilidade do poema é uma casa em viagem. Navegações habitadas.

***

Faço reverências a outra ideia-imagem que eclode: o rio, o mar, o curso navegável cúmplice com a força motriz da viagem. O poema que dá abrigo, que é casa; o poema que é móvel, que é barco-moradia em deslocamento.

***

Escrevo aqui e já estou acolá.

sexta-feira

[TRISTES AFORISMOS DA HORA PRESENTE]

1.O Brasil é um barco mitológico com quinhentos e dezessete anos, tripulado pela hipocrisia — hipócritas de dedo em riste, corruptos na sombra; hipócritas justiceiros, menos dos comparsas e da santa parentela. Uns e outros no barco louco: bons mocinhos virginais de hoje, bandidos de ontem; paladinos éticos na sala, bucaneiros no quintal. Uns e outros no barco louco.

2.Engana-se quem se espanta com tal teatro, como se teatro novo. Nesse cenário, repete-se a peça de antanho, de dantes do tempo das capitanias, aquelas hereditárias. Até roubar é um privilégio de classe. Ai de quem venha roubar no quintal da corte — pior ainda se chegar descalço.

3.Não diga no Brasil de hoje (quiçá mundo afora) que você é honesto. Não diga. O lobo da suspeição caminha pelas trevas.

4.Dar a mão à palmatória — eis uma lição para o país inteiro. Todas as janelas têm vidraça. Todas as casas são de vidro. E para isto não há penitência.

5.Vejo na tevê o galinho de briga, neto de galos maiores. Ah, se o doutor Sigmund fosse vivo, ah, se vivo ele fosse, vivo e ladino para dar curso a novos tratados no campo da histeria. 

6.Vejam, meninos: quando um rico grita, há risco no seu amado cofre. Quando um rico grita, o cofre está sem recheios.

7.Ah, meu Brasil de quinhentos e dezessete anos — tudo está como dantes. De novo o sonho minguou-se, de novo veio o mar de borrasca. 

8.A orquestra de tintas e gráficas já toca os seus macabros tambores — marchemos todos para o abismo.

9.Tantos lacerdas nas vizinhanças, tantas vivandeiras com as mãos nas bolsas. E a orquestra de tintas e gráficas já toca os seus macabros tambores — marchemos todos para o abismo.

10.Abro a porta para as manhãs. Os pássaros estão calados. Calado está o cachorro e o menino brinca cabisbaixo. Dói a dor mais profunda. Sem medicamentos. 

11. Quem vem lá? É o tropel das bestas guiadas. Cada uma com o seu cincerro, cada uma com a sua viseira. Atendem ao chamado do novo Torquemada.

12.Ah, os falsários no leme do barco. O barco louco. Ah, os falsários mesoclíticos, com ares santarrões. Elevo-lhes o meu punho, o meu escárnio, o meu ilimitado e infinito desprezo. 

13. O Brasil é um barco mitológico com quinhentos e dezessete anos. E fodeu-se.

quinta-feira

[RAPSÓDIA PARA LÁPIS E ABISMO]

[com o lápis cego e o papel mais tosco, 
e mais áspero, vamos pela tarde 
experimentar certas funduras de abismos.

o engenho é uma ponte pênsil, dá gosto
o desaprumo de margem a margem, de vértigo
a vértigo, tantas cidades dentro da cidade.

o lápis lança-de-quixote vai em riste
de grafite, somos tão mínimos, menores
do que nossos sapatos, nossos ternos tristes.

a pequeneza das pupilas dos mosquitos, os ursos
e os javalis de praça em praça, os filósofos,
as cantoras de cabaré, os comícios, o luto

de mães que vestiram a roupa pelo avesso,
o riso de pais que estão no beco, justo
na lua-lama que se formou dentro de um poço.

com o lápis cego e o papel mais tosco,
e mais áspero, eis que vamos pela tarde
experimentar certas funduras de abismos.

e há, por fim, os senhores limpos, com lírios no peito,
balsâmicos passaredos em seus autos, seus óculos
de desrutilar o rútilo, seus vidros espanta-medo.]

terça-feira

[GRAMÁTICA DA SAUDADE]

[Em duplas, fomos hoje pela Avenida Afonso Pena em missão de colheita. Colheita de saudades. 

Saudades florescem pela avenida afora, isto eu soube por João Serenus. Algumas são tenras, são frágeis, e crescem como avencas nos muros. Outras são saudades velhas, muito envelhecidas, e moram em um buraco do tempo. 

Há saudades de um amor que ficou com o seu olho branco na beira de uma estrada. 

Há saudades da mulher que, de herança, só deixou o esvoaçar de uma saia. 

Há saudades irritadas, sempre incompreendidas. 

Há saudades doloridas, vestidas de luto. 

E há saudades que se foram, que se perderam, se evaporaram, que foram comidas pelo fogo do dia, o dia que avançou manhã adentro e trouxe com ele a seiva das revoluções. 

Há saudades que nos vitimam com o repentino raio de um lusco-fusco. Elas nos vitimam e somem, tornam-se pássaros incendiados. 

Há saudades que são apenas voz, a voz de uma mãe, a voz de uma mãe que soa nos entardeceres, longe, nos longes mais que longes. 

Há saudades bêbadas, desnorteadas, enlouquecidas, essas que nunca estão onde desejamos que estivessem. 

Há saudades falsas, simuladas, com florações falsas, recobertas por ervas daninhas. 

Há saudades estrangeiras, em eterno movimento migratório, daqui para lá, de lá para algures. 

Há saudades puramente noturnas, as quais se escondem ao raiar do sol. 

E há a saudade-saudade, sobre a qual João Serenus se cala, e eu, humilde, desconverso. 

É a tal saudade-saudade nos abismos de um espelho.] 

segunda-feira

[JARDINS E DESERTOS]

[o eco, que é a memória da voz, reverbera pelo jardim das palavras. edmond jabès diz que jardim é palavra, e que deserto é escritura. matinal, o homem vai aos canteiros do jardim observar se houve eclosão de sementes durante a noite, ou se a escritura do deserto trouxe nova caravana. "há muito a fazer", disse o homem. é já um homem velho este homem que, expedicionário, trata jardins e desertos como se fossem livros. "todo livro é um pequeno coração pulsante entre os nossos dedos", ele fala. e o eco, de algum lugar das primeiras falas, reverbera pelo jardim das palavras. são ressonâncias de campânulas ao vento. ou talvez o silêncio escrito. "ou o silêncio a escrever", diz o homem.]