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Correio Do Autor

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quinta-feira

[OBRA EM PROGRESSO, OBRA EM MOSAICO]

[o que construo não é a obra 
em progresso, mas a obra 
em mosaico. obra em progresso 
pressupõe o que evolui, 
avança, marcha. pressupõe 
um começo em movimento. 
pressupõe uma altanaria
do autor, nariz, pescoço, cenho,
as sobrancelhas arqueadas,
ei-lo que passa, tão admirável.

o que construo é a obra
em mosaico, um tabuleiro
de pedras sobre o assoalho
depois do chute de um menino
ou da destemperança
de um filhote de cachorro.
não há avanço, nada evolui
nessa obra em mosaico.
cada pedra é uma pedra
na superfície escriturável
e desenhável dos ladrilhos, 
dos azulejos. 

a obra em mosaico são porções
a esmo caídas dessa mão
travessa, mão guiada 
por um rabo de vento, fiapo
de vento que o redemoinho
esqueceu com os anjos-diabelhos
dos livros. e os próprios livros
de uma obra em mosaico
são tropeções ou trupicagens
de um sapato-carlitos.]

terça-feira

[O FRANGO SEM PENAS]

["eis 
aqui
o
homem
de 
platão",
disse
diógenes
de
sínope,

cínico,
ao
atirar
um 
frango
depenado
na
academia
grega

para 
caçoar
da
cara
do 
filósofo
que 
havia
dito
isto:
"o
homem
é
um
animal
bípede
implume".]

[OH]

[imenso 
perigo 

no 
oh 
que o leitor
faz 
diante 
do 
seu 
poema.] 

domingo

[DA SEPARAÇÃO ENTRE O POEMA E A POESIA]

[foto de peter turnely]
[penso na figura do poema: 
plâncton, âmbar, abelha, 
ou grãos de trigo, em pendões, 
ao vento. penso nessa figura
que nada tem com a poesia.

penso no organismo, 
no indivíduo, penso na ilha 
e não penso no continente.
penso a figura de um tufo 
de algodão que rola, deriva,
ao sopro de uma ventania.

penso na figura em minudência
ímpar, esses caroços do júbilo
e do êxtase. penso nessa figura
a que se denominou poema, já
tarde demais quando a poesia 
era já forma adiposa, teia-aranha.

penso na figura do que é menos,
penso nos engenhos da partícula,
o plâncton, o âmbar, o pólen,
e não penso na forma-em-abundância,
nos cargueiros sinistros oceânicos,
não penso na forma que é discurso.

agora é quase noite, e a poesia
é esse bolero sob o poste: lacrimosa,
pantagruélica, a gula pela gordura.

agora é quase noite, e o poema
é esse farelo de pão sobre a toalha,
nele cabe uma galáxia, tão condensável
é o átomo de sua anatomia.]

quarta-feira

[A LUXÚRIA E O POEMA]

[e o poema impôs ao tempo
a grã luxúria, este terceiro dos sete
pecados capitais. e o poema

deu viço ao que era baço, 
ao que era opaco, deu
magnificência e exuberância

ao tempo, alegrou as nuvens,
desregrou o vento em dançarolas
de leitura, e o vento assim leitor

agora cúmplice do poema
enamorou-se da luxúria, urra!,
gritaram os marinheiros no cais,

urra!, gritaram as mulheres de azul,
eia!, assim, em uníssono, os anjos
sem emprego nem patrões rumaram

em desgoverno para a festa, urra!,
outra vez gritaram os marinheiros
e lançaram ao mar os alfabetos, eia!,

e então os potros na montanha, eia!,
que a luxúria vinha com as romãs, eia!,
que o poema atiçava odor de enxofre,

e as éguas, ao largo, minavam água
de suas ancas, e os deuses, infantos,
entravam inteiros nos tonéis de baco.]

terça-feira

[O ECO DA SUA INFÂNCIA ESTÁ DESAFINADO]

["o eco da sua infância
está desafinado", diz elias canetti
neste livro de frases 
que é o suplício das moscas.

apuro o meu ouvido menos avariado
para saber dos meus próprios 
desafinos. tão longe está a origem 
do eco. tão longo caminho 
faz o eco para manter em mim 
alguma ressonância nos arpejos 
deste século. melhor não confiar
nesse cacho de sons tão sem peso.

persigo outro caminho incógnito
para ir à infância: desenho
as garatujas, convoco os vocábulos,
defino com eles o mapa na folha
em branco até que as vogais 
e as consoantes,
em territórios do eu menino,
possam indicar terra à vista.]

sexta-feira

[VALÉRY, DEGAS, MALLARMÉ]

[imensa era a admiração de paul valéry
por edgar degas. o poeta de cemitério
marinho definia o pintor como homem
de engenho, de inteligência singular.

quando valéry conheceu degas, este vivia
na rua victor-massé, em sobrado de três
andares. no primeiro, havia um museu
com obras que degas reuniu ao longo

da vida. tinha corots, delacroix, ingres.
no segundo, vivia o pintor, em espaço
coberto pela poeira, com as paredes
cheias de esboços, um bricabraque

de objetaria e maravilhamento. por fim,
no terceiro andar, ficava o ateliê de degas,
seu santuário de criação, suas tintas 
e vasilhas, as esponjas, as ferramentas.

mas valéry, nessas recordações, lança
luz sobre outra faceta de degas, qual
seja, a faceta de poeta, de meticuloso
sonetista, exigente até o desespero.

aconselhava-se com mallarmé, conforme
conta valéry. e foi do poeta do lance
de dados que degas ouviu a famosa
lição, que se tornou lema de tantos,

pelo certeiro ensinamento. degas
lutava na composição de um soneto
e recorreu a mallarmé para expressar
o fracasso, dizendo-se cheio de ideias,

mas incapaz de concluir a peça. eis então
que mallarmé lhe disse a sentença tão 
conhecida: "mas, degas, os poemas não 
feitos com ideias, são feitos com palavras".]