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Correio Do Autor

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sexta-feira

[O MESTRE E O APRENDIZ]

["e você inventou um mundo?", ele perguntou.

["ainda não", ele respondeu.]

["e inventou uma primeira pessoa?", ele tornou a perguntar.]

["ainda não", ele respondeu.

["como então você quer ser escritor?", ele perguntou enquanto ia pela rua, a rua dava em uma avenida, a avenida dava em uma praça, a praça compunha com outras praças, ruas e avenidas uma cidade, a cidade era uma cidade voadora, voava mundo afora de continente em continente, e as cidades assim, as cidades que voam, são cidades muito apreciáveis.]

[OS ESCRITORES QUE DESISTIRAM]

[ALMÉRIO ALUMBRES]

[almério alumbres, romancista até os 40, mas criador de peixes daí em diante, costuma ainda hoje reverberar dentro dele os versos de maiakóvski, aqueles versos que dizem sobre o barco do amor que se espatifa contra a vida cotidiana. almério alumbres sabe bem do parafuso que aperta, do ar que falta, do incômodo que inquieta. e sabe que chegou ao beco sem saída. almério alumbres desistiu. e quando alguém desiste as estrelas cadentes param de cair.]

[do livro "os estetas do porto vaga-lume", de gilles petrus, belo-horizontino, nascido em 1972.]

[SILÉSIO ANDORES]

[corria pela cidade, à boca pequena, que silésio andores havia desistido de escrever porque em um certo dia de maio houve pane em sua esperança, deu caruncho em sua vontade, alastrou-se mofo em seu desejo, apodreceram os frutos em sua árvore.]

[do livro "o amante de filomena darte", de caio moiro, amazonense, nascido em 1968.]

[AMADEU ANTÔNIO]

[de repente, em um dia qualquer que parece ter sido borrado do calendário, amadeu antônio acordou e percebeu que se tornara pernóstico e pedante. estava irreconhecível. parecia que um gancho elevava a ponta do seu nariz acima dos homens. passou a cultivar preciosismos. era atraído pelas frases pomposas, pelos arabescos estilísticos, aqueles léxicos escavados em cemitérios. amadeu antônio era o próprio retrato de um cabideiro de berloques frásicos. não demorou muito e ele fez o que, ainda hoje, soa como uma ação caridosa com o mundo, um gesto humanitário: ele parou de escrever.]

[do livro "um morcego na academia", de léa galvez, carioca, nascida em 1971.]

segunda-feira

[A INDIFERENÇA]

[a indiferença talvez seja uma espécie 
de goma sob a pele do rosto, goma 
plástica, moldável, ou talvez 
seja um rosto acima do verdadeiro 
rosto, ou mesmo uma coleção de rostos 
para uso vário, conveniente e diverso.

a indiferença talvez possua 
uma voz secreta, voz sem voz 
que, não obstante, ordena 
ao dono do rosto: "ignore". 
voz sem som que, não obstante, 
diz: "nada demonstre". 

nada demonstrar parece 
ser a mais velha tática adotada 
pela indiferença, ela que é 
mármore aplainado e lixado 
em sua superfície, 
ela que é sal banido, a música 
silenciada, o semblante coberto 
pela cal ou por uma película 
tumular de gesso.] 

domingo

[LEITOR-CLIENTE]

[o leitor-cliente se aproxima do poema
como se da máquina secadora. ou da pasta
de amendoim. ou do espaguete. ele chega
e acha que um poema é mera farinha,
expostas mercadorias nas gôndolas, bibelô
sobre a cômoda, pinguim sobre a geladeira.

pois quebra a cara tal leitor que emergiu
da massa cega. não percebe que o poema
em suas mãos é só espuma. é inútil, sem
serventia. pior: o poema dele foge, rastro
apagável de um tigre na neve. é vento, é
invisível, vai de janela a janela, é a síncope
de um susto, estalo no pensamento.]

[POEMAS-MANADAS]

[que triste, não? que triste tempo
em que os poemas parecem bolos 
assados em uma mesma fôrma, 
arremedos vocais de uma mesma
boca, linhas superpostas umas
sobre as outras como se as peças
de um mesmo quebra-cabeça. 
que fiasco, não? que monótomo
arpejo no bordão do banjo, tudo
tão morno, é o mesmo arranjo
de vocábulo atrás de vocábulo
como se gôndola de supermercado.
lembram na página a migração
das manadas: um boi, outro boi,
um bisonte, outro bisonte, gnu
atrás de gnu, ovelha atrás de ovelha,
é a mesma mancha móvel de letras
aos olhos de quem lê: axioma óbvio
e geral incapaz de surpreender.]

quarta-feira

[TUDO QUER SER LIDO, TODOS QUEREM SER LIDOS]

[tudo quer ser lido: a flor, o parafuso, o cisco. a paisagem quer ser lida, e a janela, o fogo, o trovão. tudo quer ser lido e expõe sua textuaria ao mundo. o homem que vai, a mulher que vem, o menino que atravessa a zona de sombra de um edifício: todos querem ser lidos. escreve-se com o corpo, escreve-se com o silêncio. e tudo isto quer ser lido. débora, a engasgada, quer ser lida. jader, o furioso, quer ser lido. papéis, células lexicais na luz, geometrias vocabulares, arranjos de letras inscritas na pele: tudo quer ser lido. o lado certo e o lado avesso do objeto querem ser lidos. o objeto "a" quer ser lido. as paredes rebatidas pela voz para dentro do analista querem ser lidas, e própria voz, para dentro, posto que é voz ouvinte, quer ser lida. já não é mais só o poema, o romance, o tratado, o ensaio. tudo quer ser lido. adolfo, o pastor, quer ser lido. hélia, a noviça, quer ser lida. o olho que lê também quer ser lido, e a mão que apalpa, tato legente, quer ser lida. quem não escreve quer ser lido, e quem escreve quer ser lido. há o pássaro metálico de um pânico, e o pássaro quer ser lido. e o pânico quer ser lido. não importa que faltem olhos, não importa mais a escassez legente: tudo quer ser lido, todos querem ser lidos. dança a letraria abundante pelos salões virtuais: tudo quer ser lido. mesmo quem nunca leu, quer ser lido. mesmo quem já morreu, quer ser lido. eis as lápides, eis a saudade ou a indiferença pelo que agora é pó: tudo quer ser lido. até a leitura quer ser lida. a antileitura quer ser lida, e a antipalavra quer ser lida. partículas fetais de vocábulos ainda para nascer querem ser lidas. a finitude e a infinitude querem ser lidas. o leitor que pede o autógrafo ao autor quer ser lido, e o aglomerado de sábado, à porta da livraria, mais do que exibível, quer ser lido. o diálogo, mais do que a operação dialógica entre um e outro, quer ser lido. a fala quer ser lida. e a própria repetição infinita que aqui se faz e aqui se escreve quer ser lida.]

[DAS COMPLACÊNCIAS]

[os construtores de discípulos poéticos tomavam sorvete à tarde com os seus pupilos. asseguravam elogiosa lápide no futuro ou quem sabe busto de bronze na praça.]

["para que um busto?", perguntavam os malévolos.]

["ora, para que os pombos", diziam os maledicentes.]

[todos, em volta dos sorvetes, conjugavam verbos dóceis, doces, adocicados, posto que todas as obras são obras-primas no círculo dos compadres.]

[o elogio fácil fazia revoo de cotovias na tarde. o elogio fácil brincava de roda, passava anéis, organizava quermesses.]

[e a incontinência falaciosa dos comentadores dava ao mundo a consistência do volátil.]

[OS FURTANTES E OS ROUBANTES]

[o país dos furtantes e roubantes
amanhece gúvido, bégado, loupres.

os furtantes não dormiram, 
e os roubantes nem foram para a cama.

o país está vígado, gébido, lampes.
tantos furtantes e roubantes

acesos, com o rastilho e o fósforo,
à beira dos livros dóguidos, júlivos,

válados. os furtantes e roubantes
vão incendiar os livros. os cérebros

do país estão zípidos, záguidos, vôugos.
não há esperança. a esperança

desce, areia fina, pelas peneiras.
os furtantes e roubantes (de toga,

cartola, bengala, chapéus-panamá)
vão pelavenida, pelapraça, pelobeco,

pela aglutinação das palavras áldidas,
núvigas, zagantes. acabou o conhaque.

o tango foi sorvido pelo fole 
de um bandoneón derretido. asas

de morcegos vagam pela superfície
da sopa. os furtantes e os roubantes,

insones, perenes, levam as verrugas,
os cadarços, as ampolas, os óculos

e as lascas de unhas. meninos
se veem no espelho de poças de sangue.

o ninho dos furtantes e roubantes
prolifera ovos e ovos e ovos e ovos.

o país está jípido, fíquido, lípodo.
e há cadeados nos dicionários.]