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sexta-feira

[A SOMBRA INQUIETA]

[aqui vou eu com os dois vinténs
da palavra persistência. "é longe?",
pergunta a minha sombra. ninguém
diz ah ou uh de um lado e outro
do rio seco. "quem vem lá?", indaga
o texto raquítico, mendigo, texto
aos farrapos na tarde definhante.

ecos de um pronome sem uso
rebatem no outro lado da margem.
"devo continuar?", pergunta aflita
a minha sombra. "ou devo por fim
fechar o caderno e quebrar o lápis?",
a sombra insiste. ninguém responde.

o velho já perde a sustância nos elos
das cartilagens. a grafia refuga os laços
de um vocábulo mais ágil. e a sombra,
outra vez e mais uma vez, se inquieta.
"devo seguir com os dois vinténs
da persistência, ou então me calo
em algum recanto de silêncio?", ela
pergunta. mas ninguém diz ah ou uh
na tarde submersa em quase noite.]

[COMO SÃO CHATOS OS LITERAIS]

[tornei-me escritor, 
ainda petiz,
por não aceitar 
a chefia
da literalidade.]

quinta-feira

[AS EXIGÊNCIAS DO POEMA]

[as exigências do poema são iguais
as da culinária, ou as da lavoura, 
ou mesmo as do leitor de nuvens 
em céus calmos ou revoltos. 

da culinária, o poema pede as mesmas 
artes do aroma, exatas doses 
do que seja simples ou complexo,
a não predominância 
de um tempero sobre outro. 

da lavoura, que tenha 
a ciência do preparo do terreno, 
da escolha das sementes, da disposição 
entre uma e outra planta, 
e que a colheita seja no tempo certo. 

do leitor de nuvens, 
o poema aprende a distinguir as variações 
do vento, o cinema do movimento 
de um lado a outro do firmamento, 
aprende também sobre as dissipações 
para o inefável, para o desparecimento, 
a súbita partida das nuvens 
para que o céu por fim se azule.]

[DECÁLOGO PARA A ARTE DO CONTO, EM DIÁLOGO COM O DECÁLOGO DE JULIO RAMÓN RIBEYRO]

1.Pode um conto não contar uma história. Mesmo assim a história estará sendo contada. Por exemplo: a história do rosto do leitor que lê um conto que não conta uma história.

2.A história em um conto pode estar na borda, no limite, na sangria: quase saindo do conto. Se o contista for esperto, a história que fica nas beiras do conto pode ganhar os olhos do leitor.

3.Quando um conto vai além do tempo que se consome para tomar meia garrafa de cerveja, calmamente, sem goles longos, muito provavelmente esse conto já não quer ser conto, embora não seja ainda uma novela.

4.Se porventura o conto possuir uma história, essa história deve ser assemelhada com os olhos de uma mulher em estado de paixão. É um redemoinho que suga, traga, puxa, consome irremediavelmente os olhos do leitor. Se nada disso ocorrer, é bem capaz que o conto e a história que porventura possuir o conto sejam nada mais que uma pedra de gelo, em derretimento.

5.A partitura por onde navega o conto deve ser hábil como a música de um cavaquinho, entremeando rapidez e lentidão. E se o contista tiver habilidade de sobra fará do cavaquinho-conto um exercício de contraponto com um violão de sete cordas, alternando o lado de cá, agudo, com o lado de lá, grave. Um leitor com um conto assim diante dos olhos será um leitor feliz.

6.Talvez a maior virtude de um conto seja enroscar-se como uma enguia no pescoço do leitor, sem que ele perceba. Só ao chegar à última linha, o leitor sentirá o sufoco, o ar que ele respira será faltante, a vista estará turva, pois uma emoção sem limites tomou de assalto esse instante de comunhão extrema.

7.Assim como a profusão de rostos numa multidão, essa sinfonia dos diferentes, também são profusos os modos para se escrever um conto. Uma única palavra põe fogo no rastilho, ou uma frase única, serpenteante, interminável, com a limpidez de água de fonte ou com atmosfera da travessia de um pântano em noite sem lua. Os modos de se achegar ao conto não podem ser enumerados, por sua abundância.

8.Um conto pode ter personagens. Ou não. Ou pode ser constituído apenas pela música de uma sentença que se espirala, enlaça, amarra ou desata um conflito, por exemplo, entre a sombra e a luz, entre o relâmpago e a vidraça de um quarto desabitado.

9.A função do conto é dar vida ao minúsculo, ao pequeno, ao imperceptível. O que pode tanto ser o farelo ou o cisco sobre mesa matinal ou a aura sem expressão de um pobre homem sem rumo, pelas ruas de uma cidade. Ao cantar as minudências, ao apanhar em sua teia o inseto errante, o conto atinge o magnífico, o grandioso.

10.Um conto, muitas vezes, por inabilidade do contista, conclui a sua jornada com um pretenso ponto definitivo, e quase sempre falha nessa estratégia, pois vã é a ideia de conclusão. Não sem motivo, a grandeza de um conto é a súbita imobilidade da mão do maestro, suspensa no ar, propondo ao leitor o benefício do inacabado.


[LER LACAN]

[ler lacan, aquele do cinco
da rue de lille, como se lê
dante, pound, eliot, ou
o nosso oswald, ou o nosso

haroldo de campos, posto
que lacan, ora, nele, para
ele, para lacan, cada palavra 
tem peso, volume, música,

história, nuança, matiz, cor, 
cheiro e aroma, e quem vê 
nelas e desdobra delas giros 
e exegeses está no mesmo

bando-banda dos poetas 
fundadores-inventores, posto 
que poesia não é quermesse,
nem é babar bobice para a lua.]

[ERA O RELÓGIO DAS 19 HORAS]

[partiu joão, o sem gramática.
terminou a saga. foi-se 
pela estrada, a que é infinita,
a estrada que não acaba nunca.

não pude vê-lo enquanto partia
no trem vespertino das 19 horas.
batia o relógio da plataforma, 
o relógio batia as 19 horas.

sozinho partiu joão, o sem gramática.
sozinho como se faz nesse modo
de viagem. ninguém atrás,
ninguém adiante, só e só o viajante.

viveu quase em silêncio, e nada disse
no embarque. são trens que são
velozes esses trens nessa viagem.
chega o instante, a hora explode.

assim partiu joão, o sem gramática.
tão depressa que não pude afagar 
as suas mãos curtas. o tempo, esse
trem louco, já dava o giro nas rodas.

partiu joão, o sem gramática. sem 
mala, não levou nada, e a casa
das 19 horas era uma casa sem música.
assim partiu joão, o sem gramática.]

[A MENINA DE REYKJAVÍK]

[todos os anos, a menina de reykjavík, 
lá do atlântico norte, vinha no mês
dezembro escrever o seu diário do sul.

eram trinta dias de notas em seu caderno
multicor. espremia as vogais da língua
brasileira, abria as consoantes mais quentes
com seus dedos acostumados a separar
o gelo do gelo, o frio do frio, lá em reykjavík.

eram trinta dias de notas, na sofreguidão
de escrever, trinta dias na rede de uma varanda
nos trópicos, tão distante de reykjavík.

nos meses restantes do ano, já de volta
a reykjavík, ela abria os ditongos
estranhos do seu amado islandês.

e neles punha os quentudes da língua 
falada no sul. recheava assim as 32
letras do alfabeto de lá, com o suco
vogálico extraído da polpa do maracujá,
da polpa do abacaxi, e então lia 
em voz alta, sob as auroras do norte, 
as palavras escritas no sul.]

[OS NOMES QUE DOU À ESPERANÇA]

[minha esperança tem muitos nomes. por exemplo, serrote. por exemplo, martelo.]

[chamo-a igualmente de enxada, goiva, prumo e bússola.]

[assim que a esperança se posiciona na paisagem, trato de chamá-la lápis, caderno, apontador.]

[em certos momentos, nomeio a minha esperança de semente, mas logo sei que melhor será chamá-la arado, lavoura, plantio e colheita.]

[em outros instantes, quando das travessias impossíveis, chamo-a barco, barcaça, navio.]

[dou sempre à minha esperança os combustíveis do movimento.]

[se adoentada, frágil e anêmica, trato de dar à minha esperança os sapatos do andarilho.]

[levo comigo o odre com a água para que a minha esperança não morra de sede.]

[levo comigo o odre com o vinho para que a minha esperança não morra de tristeza.]

[levo comigo as cores todas da paleta de cores para que a minha esperança possa estar pronta para os bailes e as alegrias.]

[há um nome que muito aprecio dar à minha esperança. este: o nome mão. a mão em côncavo para receber, a mão tesa para o trabalho.]

[há um nome que muito aprecio dar à minha esperança. este: dia. o dia que começa, o dia que atravessa, o dia que chega à tarde com os seus minutos todos plenos de verbo fazer.]

[para minha esperança, sempre encontro um verbo-flecha, um verbo-dardo, um verbo-seta, esses verbos todos inquietos.]

[a minha esperança tem sempre o corpo inconformável, e mesmo nos predomínios do desânimo ela encontra a correnteza dos rios.] 

quarta-feira

[AXIOMA]

[se você for 
dizer,
diga
com arte.
ou então 
guarde
um silêncio
elegante.]

[O BLÁ-BLÁ-BLÁ]

[o engenho d´arte de escrever
um blá-blá-blá qualquer para as massas 
no facebook. oh, que bonito. oh,
que senso esperto de acertar no alvo
em qualquer tempo ou campo aberto.
ele diz pam! e vem o aplauso. diz pum!
e vem o apupo do bando, bonecos
arrebanhados feito gado.]






quinta-feira

[DA SEPARAÇÃO ENTRE O POEMA E A POESIA]

[foto de peter turnely]
[penso na figura do poema: 
plâncton, âmbar, abelha, 
ou grãos de trigo, em pendões, 
ao vento. penso nessa figura
que nada tem com a poesia.

penso no organismo, 
no indivíduo, penso na ilha 
e não penso no continente.
penso a figura de um tufo 
de algodão que rola, deriva,
ao sopro de uma ventania.

penso na figura em minudência
ímpar, esses caroços do júbilo
e do êxtase. penso nessa figura
a que se denominou poema, já
tarde demais quando a poesia 
era já forma adiposa, teia-aranha.

penso na figura do que é menos,
penso nos engenhos da partícula,
o plâncton, o âmbar, o pólen,
e não penso na forma-em-abundância,
nos cargueiros sinistros oceânicos,
não penso na forma que é discurso.

agora é quase noite, e a poesia
é esse bolero sob o poste: lacrimosa,
pantagruélica, a gula pela gordura.

agora é quase noite, e o poema
é esse farelo de pão sobre a toalha,
nele cabe uma galáxia, tão condensável
é o átomo de sua anatomia.]

quarta-feira

[ESTRELAS CADENTES]

[ali onde o cachorro morreu
─ e se a noite é clara e há pouco
vento ─, de quando em quando
cai do céu um latido.]

[CINEMA DAS HORAS]

[descia o senhor rimbaud 
agora pela avenida afonso pena. 
levava uns vocabulários 
vândalos de espantar bobice,
e um cesto de luas doidas
para endoidecer os cínicos.]


[POÉTICA]

[escrever é mesmo 
assim: martelo e pedra,
bigorna e ferro, arado
e terra, ou um barco
adernado em alto-mar.]

[TEORIA DAS CONVERSAS]

[a teoria em voga, enquanto 
as pitangas iam sendo mordidas, 
e alguém punha inteira
nos olhos a imagem do rio 
que passava, podia ser assim
resumida:

conversas amenas são adaptações
recíprocas a um repertório comum 
entre as partes conversantes.

ocorre que um deles de repente
passou a usar um alfinete, e o outro
abriu um canivete, e logo foi puxado
um manto turvo sobre o rio, e logo
houve o apodrecimento das pitangas,
até que a teoria, tão promissora,
foi-se para o avesso, criou-se guerra
de palavras e gestos, e a esperança
rastejou em agonia pelo assoalho.]

terça-feira

[AS VASILHAS E AS PESSOAS]

[as vasilhas vazias, quando nos armários guardadas, rememoram os alimentos que contiveram, reescrevem sob a tampa a orgia das combinações de cheiros. 

são décadas, anos, meses de servir à cozinha em sua função anônima de utensílio. 

nelas lá estão, no vazio, no seu interior profundo, os traços do cominho, as exalações do alho, a pompa das especiarias.

tudo fica, tudo se mantém nas paredes da vasilha: a memória do arroz ou a história da lentilha.

na vaziez da vasilha, o odor se pereniza. 

mesmo lavadas, mesmo tão limpas, assim que guardadas as vasilhas biografam a épica dos alimentos.

da saga do açafrão à saga da taioba, da lenta resignação da couve que ao óleo se entrega, posto que da vasilha nada some, nada desaparece, seu vazio é vazio prenhe, é a prenhez do memorial das coisas.

e também das gentes, pois que as pessoas não se esvaziam nunca.

destino igual têm as vasilhas e as pessoas.

nelas tudo é memória, é assombro e espanto com o que um dia viveram: nas vasilhas, sabores; nas pessoas, outras gentes.]

segunda-feira

[QUASE NOITE. COM FRANCIS PONGE]

[é quase noite. e as pitangas 
tingem o leite que o céu derrama
a oeste, ali onde a estrela temporã
logo virá declamar um poema
de francis ponge.

o vapor de cachoeira não navega
mais no mar. o jardim protege
uma ninhada de vogais. o rústico
graveto aresta a página de uma avenca
que, quase noite, logo vai declamar
um poema de francis ponge. 

é quase noite ao sul do sul, vai
agora o sol, vem a lua, e o cheiro
do óleo diesel é o próprio coração
do diabo a bater na caldeira da fábrica.
a fábrica não vai declamar
um poema de francis ponge.

o corte no olho do cão andaluz.
o banquete dos mendigos por entre
as espirais do tabaco de buñuel.
godard recorta o senso comum
com as tesouras de uma andorinha
perdida, perdida e cega, na quase noite.
a andorinha logo declamará
um poema de francis ponge.

"fracassamos", diz o homem velho
à beira de um canteiro. "fracassamos",
dizem os leitores e as leitoras do não
à beira das páginas mortas. e o gato,
gato sem nome, subnutrido, triste,
logo vai declamar 
um poema de francis ponge.]

quarta-feira

[A FRASE DE CADA UM]

[toda frase é partícula, fração, 
migalha da história de seu falante. 
ou de seu escrevente. 
ou de seu pensante. ou mesmo 
de seu cantante.

no tom e no som. cada frase
com a sua música. ou antimúsica.
seu léxico colhido com arte
ou fruto do assalto à árvore do dizer.

seu desenho, seus buracos, suas cáries
do sujeito ao verbo, do verbo ao abismo
final dos complementos. a frase
de cada um nascida de algum recanto
escuro do ser. aqueles redemoinhos
ou círculos que levam ao leito
ou à fonte do mais íntimo.

suave ou bélica. murmurante 
ou explosiva. cada frase tem o endereço
de quem a emite. é marca intransferível.
pode ser nódoa. pode ser mancha.
mas é o signo-assinatura de quem a diz.

"nunca mais, nunca mais", fala 
o homem-corvo. "quanta dor nesse silêncio",
responde a mulher das vírgulas.

as frases de cada um: sementes à terra-chão
que podem gerar a fruta ou podem
culminar na guerra. arte é saber escutá-las
como se porções de âmbar do primeiro homem.]

sábado

[VOCÊ DIZ QUE SOU RECLUSO]

[você diz que sou recluso, ó, chevrolet,
mas este é um pensamento obtuso, arenga
sem função ou uso, do tipo amola-trevisan.

o que você quer, ó, falso baudelaire: 
que eu leve dia-sim, dia-também, as palmas
ao seu sarau parnaso, sarau mofo-rosicler.

não vou, não fui, não irei, ó, malmequer.
guardo as palmas para as ruas turvas,
os becos sem saída, os nós dos quiproquós.

tenho mais a fazer. exemplos? o baralho
louco do acaso, o andarilhar seu pouso
sob holofote dos postes, rua do lugar algum.

recluso? ora, vai amolar pincel, ó, bebé.
sou de fora quando estou dentro, pulo
para o voo cego, com asa virada pé.

se a poesia, para você, é esse beabá, ó,
barnabé, essa tertulial quermesse, vôte,
é igual brincar de casinha com maiakóvski.]

quarta-feira

[CAVALEIROS SEM OLHOS, CAVALEIROS SEM CAVALO]

[ainda noite, o livro
perdeu as margens, e o poema,
em metal fundido, corroeu
o que pertencia ao tempo.

cavaleiros sem olhos, de paris
a bagdá, cavaleiros sem cavalo,
de paris a bagdá, e, à noite, pois
era ainda noite, o livro
perdeu as margens, as tantas
margens emprestadas do rio, 
e o poema, vela a verter seu corpo
sobre o pires, corroeu o tempo,
o tempo assemelhado a cascalho
dentro da boca.

os cavaleiros sem olhos 
disseram não haver mais futuro,
disseram: "não amanhecerá".
os armários cheios de ossos,
as facas reluzentes pelas escamas
dos peixes, o pão não alcançado
sobre a mesa, pois as mãos
escreviam, era vento, era tormento,
as mãos escreviam rumo ao futuro abolido.]

terça-feira

[O FIO E O TIGRE AZUL]

[era só um fio. começava na ponta
leste e vinha como se serpente
até a ponta oeste e prosseguia
mais e mais como se desejasse
não ter fim jamais. era só um fio

na paisagem que a cidade expunha
ao ocaso, luzes trêmulas de postes
como se fantasmas, mulheres 
que puxavam os filhos aos seios
para protegê-los do tigre azul.

o fio único desafiava os tratados
de filosofia, os estudos de ciência,
ameaçava as deidades e divindades,
era um fio que começava na ponta
leste e vinha como se serpente até 

a ponta oeste, e prosseguia, mais 
e mais ele prosseguia, um fio
desejante de não ter jamais um fim
atravessava a cidade em seu ocaso
triste, de mulheres tristes, com filhos
tristes, em pânico com o tigre azul.]